A esquerda moderada em risco de ruir e o perigo que isso representa.

Um dia destes estava eu numa das minhas deambulações solitárias quando dei conta de como o socialismo está mal na Europa e ameaçado de ruir. De facto ao lembrar-me dos principais líderes socialistas europeus notei que todos seguem o caminho do populismo como resposta à ameaça da extrema-direita e do nacionalismo. A Europa actual tende a cair nos extremos, seja de esquerda ou de direita e nessa procura do jogo partidário do apoio fácil, os partidos e movimentos deixam de lado a necessidade urgente de reformas difíceis para entrarem numa competição ideológica que no entanto acaba por os aproximar, mesmo que obviamente nunca o admitem. O problema é que a esquerda está a deixar-se levar por esse jogo populista quando o que era preciso era coragem para ir contra o facilitismo que grassa na política europeia. Esta esquerda actual continua com os mesmos “clichês” de sempre, parou no tempo, não sai de um marasmo ideológico que não serve de nada para combater a ameaça nacionalista. Tanto mais que a extrema-direita começa a usar de mais em mais os mesmos “clichês”. Certo que há conquistas da esquerda que não podem ser esquecidas depois de anos e anos de luta como direitos dos trabalhadores, direitos humanos, etc. Mas é preciso ver as coisas com olhos do presente e saber evoluir sem destruir a essência desses direitos.

Mas vejamos quatro casos representativos deste definhamento do socialismo europeu. O mais famoso passa logo pela França onde o partido socialista foi quase varrido da Assembleia Nacional. Bem, é verdade que isso aconteceu muito como consequência de o anterior presidente da república ser um socialista e como se vê a sua passagem não deixou saudades mas o pior efeito disso é que agora o principal partido de esquerda em França é “A França insubmissa” que não é mais do que um movimento extremista de esquerda que entre outras coisas, defende a saída da União Europeia e uma aproximação a uma política nacionalista que até aqui era apanagio da extrema-direita. Repare-se a propósito como ambos os extremos populistas utilizam valores associados ao extremo contrário por causa de motivos eleitoralistas. Basta ver como o FN insiste na defesa dos trabalhadores que tem sido desde sempre uma das principais causas da esquerda e extrema esquerda. Mas voltando ao PS francês, esta derrota humilhante nestas últimas eleições legislativas acaba por representar um perigo para o partido e para o próprio sistema político francês na medida em que a presença de partidos extremistas e populistas na Assembleia é uma ameaça para a estabilidade da democracia. Muito provavelmente haverá maior confrontação o que indica tempos muito difíceis para Macron. E quase de certeza os movimentos extremistas tudo farão para impedir o governo e a maioria parlamentar de levarem avante as suas políticas. E se nem tudo é positivo no programa de Macron, é necessário que esse programa seja levado em frente para tirar a França do marasmo social e económico. O problema dos extremistas é que atacarão tudo em vez de procurarem os seus aspectos positivos. Algo que só os partidos moderados podem fazer.

Na Grã-Bretanha as coisas também não estão tão bem quanto parecem. Se James Corbyin, o líder dos trabalhistas, beneficiou da má jogada de Theresa May (se bem que tenha ganho as eleições, acabou por perder a maioria) este é daqueles casos em que o sucesso de uma parte deve-se mais ao fracasso da outra parte do que às suas próprias qualidades. Desde sempre James Corbyin representa uma política extremista regressiva de esquerda tal como um Jean-Luc Mélenchon em França. Em vez de se reformarem e por consequência reformarem os seus partidos, continuam convencidos que lutar contra o nacionalismo de extrema-direita é manter as mesmas ideias de sempre que essas sim acabaram por contribuir para a subida de popularidade dos partidos nacionalistas na Europa.

Em Espanha depois de muita “guerra” partidária, Pedro Sanchez recuperou o seu posto de secretário geral, sendo assim o principal líder do PSOE. Note-se que os barões do partido estavam contra isto o que indicia que se calhar não viam e não vêm um bom futuro para os socialistas  espanhóis. A verdade é que mais uma vez, Sanchez é um líder de esquerda que usa o populismo para combater o populismo de direita. É como se alguém quisesse apagar um fogo com gasolina. E quando isso acontece o fogo acaba por ficar maior e ameaçar ainda mais a pessoa que o tentou apagar. Num dos seus últimos discursos, o líder do PSOE disse que tomava como exemplo António Costa e que a Espanha deveria seguir o caminho do primeiro ministro português. Será isto sensato?

Chegamos ao último caso, o caso português. Nunca visto na história da democracia portuguesa e raramente na Europa, o actual governo é uma combinação de moderados e extremistas de esquerda que se juntaram para alcançar a maioria absoluta, mesmo não tendo ganho as eleições nas urnas. Uma simples curiosidade que para o caso não interessa muito mas que é sempre preciso lembrar. Agora que o governo apoiado pela maioria parlamentar, existe é preciso perguntar como se tem passado esta legislatura. Pode-se dizer que as coisas têm corrido bem e que está num estado de graça. E para isso tem contribuído muito uma maioria que por enquanto tem-se aguentado apesar das diferenças e um presidente da república que com a sua crença optimista acaba por caucionar a política do governo. Muito diferente do exemplo de Mário Soares que no entanto não era também um modelo a seguir. E com este exemplo, não é de espantar que Pedro Sanchez se sinta atraído pelo programa do PS. Mas duvido que este estado de graça dure sempre. A coligação parlamentar já ameaçou várias vezes de ruir. António Costa tem aguentado devido a uma política que equilibra entre o populismo e a moderação; se bem que a tendência tem sido para o populismo para satisfazer os seus parceiros no hemiciclo. Mas duvido que esse equilíbrio dure para sempre. No fundo o governo é refém da extrema esquerda e esta tenta levar o barco ao seu porto. É preciso também não esquecer que se actualmente o país parece estar numa situação melhor, isso deve-se sobretudo às políticas do anterior governo e ao esforço dos portugueses. Mesmo que ao governo actual custe a admitir isso. Essas políticas sendo duras eram necessárias, mas o governo socialista acabou por entrar numa espiral populista, tomando decisões que agradam ao povo mas que não são a reforma necessária à economia portuguesa. Era preciso um esforço de longo prazo e reformas estruturais profundas mas quase sempre os partidos têm tendência para esquecer isso por razões eleitoralistas. Ora como as coisas estão actualmente, parece-me que está situação vai ainda aguentar-se por alguns anos mas depois vai acabar. E muito provavelmente vai ser o próximo governo a pagar a “factura”.

Aqui estão 4 exemplos da ameaça socialista populista. E digo ameaça porque acabam por prejudicar a própria democracia na medida em que os extremistas acabam por tomar o devante da cena. E todos sabemos como estes são anti democratas. Por isso é necessário que a esquerda moderada se réforme e abandone o caminho populista que tem seguido.  Na política tanto a esquerda como a direita são necessárias mas com moderação, com possibilidade de entendimento quando necessário e principalmente com coragem. Se assim não for o caminho será mais difícil e o futuro mais ameaçador. Já agora o facto de os partidos de extrema-direita estarem a perder as eleições onde têm participado não quer dizer nada. É um bom sinal mas pode levar a que a esquerda continue com os mesmos erros de sempre. Por isso é necessário que não se deixe levar por estes resultados.

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