Populismo na Europa ou o regresso ao medo e à divisão!

 

Ao ver a visita de Marine Le Pen à Russia e o seu encontro com Vladimir Putin, nao pude deixar de pensar noutros dois lideres sinistros que levaram a Europa ao desastre à mais de 70 anos, Hitler e Mussolini. Se bem que Le Pen e Putin estejam longe do conceito destruidor e maquiavélico dos dois fascistas dos anos 30 do século XX, (também porque os tempos sao outros), têm em comum o populismo sempre perigoso que caracteriza o nascimento dos ditadores e uma grande vontade de enfraquecerem a Europa. De facto os quatro políticos chegaram ao cume da cena internacional devido a um aproveitamento populista do descontentamento das pessoas e ao uso de factores externos com os quais jogaram a seu favor. Mussolini chegou ao poder descontente com a forma como a Italia foi recompensada como vencedora da I guerra mundial. Um sentimento partilhado por muitos italianos que sentiram que o seu esforço nao foi devidamente recompensado. Hitler utilizou a “humilhação” do Tratado de Versalhes e as consequências nefastas da crise de 1929 na Alemanha para construir a ascensão do nazismo. Putin chegou à liderança do seu pais com a promessa de um regresso aos tempos gloriosos do império soviético e Le Pen nunca foi tao popular como agora devido à crise económica e financeira e também ao cansaço das pessoas pelos políticos e partidos tradicionais. Todos eles foram e sao produtos de determinadas causas sem as quais nao teriam existido e apresentam-se como soluções aos problemas que consideram o grande mal das épocas em causa. Por exemplo, penso que Hitler dificilmente teria ocupado o lugar de líder máximo da Alemanha, se nao fosse o vingativo Tratado de Versalhes e actualmente Le Pen teria passado despercebida se nao fosse a crise económica. Todos eles sao aquilo a que se chama populistas na medida em que tentam projectar uma imagem positiva e de confiança de forma a ganharem o favor das pessoas e atrai-las para as suas causas. Na verdade essa aparente preocupação esconde uma vontade indomável de chegarem e manterem-se no poder. Por isso o populismo é sempre uma origem da ditadura, visto que o líder populista vê-se como um salvador e por isso na sua opinião o povo deve estar satisfeito de o ter no poder, sendo que qualquer tentativa de o derrubar seria um regresso à crise e ao caos. Por isso é que movimentos políticos extremistas so ganham destaque em épocas de crise, visto que quando esta tudo bem, ninguém vai apoiar partidos que trazem respostas fantasiosas e desprovidas de bom senso. Alias os populistas, por norma, nem apresentam sequer soluções concretas mas apenas discursos floreados e agradáveis na óptica dos eleitores. Mentir, tomarem-se como solução aos problemas do país e criarem eles próprios                                                                                                                                                                                 problemas com o objectivo de criar uma causa comum que peça a sua intervenção  “miraculosa” sao quase sempre sinais de um ditador a germinar.

Mas além do populismo ha também em comum essa vontade de atacar e enfraquecer a Europa, dividindo-a. Como é do conhecimento geral a UE nasceu como uma resposta à violência provocada pelas rivalidades nacionalistas e imperialistas que caracterizavam a Europa até à 1° metade do século XX. Esta permanente conflitualidade por vezes latente, por vezes bem visível teve o seu triste auge com a II guerra mundial. Chegou-se aí a um ponto tal de destruição que fez os europeus reflectirem sobre o seu caminho e procurarem novas formas de relacionamento, além de que o poder que a Europa tinha até então era substituído pelo mundo bipolar da guerra fria entre os EUA e a ex-URSS. Todos sabemos como começou esse conflito. A vontade expansionista do nazismo foi o motor que fez o velho continente entrar numa época de terror. O sonho louco de um Reich por mil anos através da violência e da conquista fez a Europa despertar para a ameaça hitleriana e entrar num novo conflito, quando as memórias da I grande guerra ainda estavam frescas. Mussolini, sem ter a mesma ambição, desejava mesmo assim um império que fizesse à Itália relembrar a glória do passado romano, tendo ocupado a Etiópia. Esta ambição nacionalista e nostálgica de supostos tempos de prosperidade é característica dos extremismos, principalmente da extrema-direita e pode ser vista actualmente. Tal como Mussolini, Putin deseja que a Rússia recupere a força do passado, quando metade do mundo estava sob a sua influência e a outra metade tremia com as suas ameaças. Não é de admirar por isso que Putin considere o período estalinista como o mais importante da história soviética. Esta nostalgia também é notória em Marine Le Pen. Neste caso nota-se mais pelo discurso hipernacionalista e o uso simbólico da figura da Joana d’Arc como figura tradicionalista e unificadora de uma França conservadora e rural. Além disso o discurso anti-UE dos partidos extremistas mostra uma vontade cega aos nacionalismos que tanto mal fizeram. A propósito é sintomático o exemplo de ignorância demonstrada por Le Pen, numa frase dita há pouco tempo. Para ela, a UE deve acabar porque ela é contra os impérios. Em 1 lugar a UE não é um império. Um império caracteriza-se pelo domínio de um povo ou país sobre vários outros povos e países num grande extensão territorial o que é ao contrário da UE onde existe uma representatividade igualitária de todos os países membros. Depois Le Pen diz querer acabar com o império da UE. Ora a UE nasceu precisamente para se acabar com os sentimentos nacionalistas e imperialistas. Por isso o desejo de Le Pen é contraditório e baseia-se na hipocrita visão populista que tenta enganar a realidade para se chegar ao poder.

Sem querer ver nesta ameaça populista actual, uma hipótese de um conflito mundial, não posso deixar porém de ver com bastante apreensão o regresso de uma realidade que julgava-se definitivamente fechada com o fim da II grande guerra. Mas as gerações que viveram as guerras estão a desaparecer e as mais novas não têm consciência do que foram esses tempos, tão influenciadas que estão pelo mundo do consumismo selvagem e pelo “bombardeamento” constante da informação virtual. Torna-se por isso sempre urgente combater os extremismos populistas e procurar verdadeiras soluções democráticas nem que isso doa de início.

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