O tempo de Cavaco.

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Acabou hoje o tempo político de Cavaco Silva. So este facto faz do dia de hoje um dia importante na historia portuguesa, mais do que a chegada de um novo presidente. Nao tenho muito o habito de dedicar artigos no blog a políticos, penso mesmo que é o primeiro a quem dedico um texto mas no seu caso justifica-se, independentemente de gostar ou nao dele. Alias tentarei ser o mais imparcial possível, mas uma coisa é certa ninguém pode negar a sua influência na recente historia portuguesa. A historia de Cavaco Silva é bem curiosa e por demais conhecida. Começa na rodagem do carro de alguém que nunca se considerou político profissional para terminar trinta e um anos depois com o estatuto de pessoa que mais tempo esteve no poder em Portugal depois de Oliveira Salazar (dez anos como primeiro-ministro e mais dez como presidente com quatro maiorias absolutas, as duas primeiras inigualáveis até agora). So isto bastaria que o nome de Cavaco Silva ficasse registado na memória colectiva portuguesa mas atribuir à sua durabilidade no poder, motivo suficiente para isso, seria injusto para com a própria Historia, pois que o que fica nao é so o tempo mas também o que foi e nao foi feito nesse tempo. Cavaco,como ser humano, fez coisas boas mas também errou. Foram muitos anos onde era impossível que tudo fosse perfeito mas também nem tudo foi tao mau como alguns quiseram “pintar”. Alguns que nao reconhecem o quanto Portugal mudou em todos estes anos e que muito dessa mudança deve-se à acção do primeiro-ministro Cavaco Silva. Insisto sempre em falar nesses tempos, pois que apesar de muito novo ainda me lembro de muita coisa. O que era Portugal antes de Cavaco? Um pais industrialmente atrasado com um sistema de transportes bastante lento e por vezes inexistente, onde o sistema de saúde funcionava mal, ainda lentamente a sair da apatia do Estado Novo (tinham passado apenas onze anos desde o seu fim) e que encontrava dificuldades para sair do marasmo. A governação de Cavaco veio mudar as coisas. Foi uma época de novidades tao corriqueiras como o primeiro multibanco, o primeiro hipermercado, o primeiro centro-comercial, as primeiras televisões e rádios privadas ou ainda a conclusão (finalmente) da auto-estrada Porto-Lisboa. Hoje em dia sao coisas banais e nao imaginamos a vida sem elas mas é preciso ter vivido naquele tempo para se dar conta do que essas mudanças representaram na época. E a principal consequência foi um ambiente de orgulho em Portugal. De repente os portugueses voltavam a elogiar o seu pais em vez de o denegrir em relação aos países mais desenvolvidos da Europa, pela primeira vez deixavam de se sentir pequeninos em relação ao que viam la fora. Graças aos fundos da UE, na época ainda chamada CEE, Portugal aproximou-se da Europa, a classe média ganhou poder de compra e em geral o nível de vida melhorou. Mas e como disse no inicio nem tudo foi positivo no tempo governativo de Cavaco. Atribuo a parte negativa principalmente a três factores: a predominância economicista em detrimento do factor humano, o conservadorismo sempre fechado às novas visões artísticas e culturais e o aparente imobilismo tao aproveitado como forma de gozo pelos seus detractores.
Quanto ao primeiro factor, houve em Portugal um desenvolvimento económico mas pouco houve de um avanço social e cultural. Os números imperaram na acção cavaquista para o bem e para o mal e foi nessa altura que o consumismo desenfreado deu um salto que iria ocupar um lugar invasor com o passar do tempo. Os portugueses descobriram o sentido da nova-riqueza e a ansiedade de consumir mas nem por isso evoluíram muito no pensamento social, e este facto explica muito da situação actual. Mas se o tempo de Cavaco foi liberal ao nível económico, foi conservador ao nível social e cultural e aqui entramos no segundo factor. Ha dois exemplos que explicam bem este conservadorismo: o famoso caso Sousa Lara/José Saramago e a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e adopção também por pessoas do mesmo sexo. Cavaco nao soube acompanhar a diversidade portuguesa e isso foi um dos seus erros. Claro que tem direito aos seus gostos mas como primeiro-ministro e presidente poderia ter sido mais imparcial. E este afastamento aparente em relação ao povo viu-se principalmente na forma como lidou com os protestos da ponte 25 de abril em 1994 e que marcou o inicio do seu fim como primeiro-ministro e na forma como actuou como presidente na maior parte do tempo. O caso da ponte talvez possa ser explicado pela influência que teria recebido de Margaret Tatcher que era do mesmo campo político e que também nao tinha remorsos em enfrentar de forma dura os sindicatos. Para Cavaco a necessidade de desenvolver o pais era maior, nem que para isso fosse preciso atacar a extrema-esquerda que de tudo fazia e faria para o descer ao nível uma figura decorativa. E foi esta rivalidade entre um homem de direita e uma extrema-esquerda que nao o suportava que criou a imagem de imobilismo tao espalhada pelos adeptos desta ultima. Porque se é verdade que Cavaco nunca foi uma pessoa muito expansiva, também nao é verdade que fosse uma estatua afastada da realidade portuguesa. No fundo, Cavaco so foi estatua para aqueles que viram que ele nao actuou como eles desejavam. Cavaco nao lhes fez a vontade e eles nao gostaram atacando-o assim repetidamente com acusações de desrespeito pela constituição e pelo povo. Também por isso, Cavaco nao teve a despedida que merecia no final da sua presidência. Aconteceu a mesma coisa enquanto primeiro-ministro. Em ambos os casos entrou em triunfo e saiu pela porta pequena por culpa da esquerda que viu nele o seu principal inimigo. Mas Cavaco mais altivo do que arrogante, nunca desceu ao nível da acusação fácil e gratuita e o futuro vai chegar para o julgar de forma imparcial e desprovida de paixões. Poderia ter feito mais e melhor? Sim poderia, mas por culpa própria e também por culpa alheia nao foi até ao fim das reformas.
O tempo de Cavaco acabou por enquanto, pois que no futuro pode fazer como Mario Soares e tentar um regresso à presidência embora nao acredite que o faça. Eu disse que no inicio iria tentar ser o mais imparcial possível e acho que o fui mas nao posso deixar de notar que quando ele foi eleito primeiro-ministro na primeira vez eu tinha nove anos e agora tenho trinta e nove e por isso sao muitos anos que acompanharam a minha vida. Por isso e apesar de todos os seus defeitos, nao tenho problema nenhum em considerar Cavaco como o melhor político que vi a actuar até agora em Portugal.

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