Do sentido duplo das religiões e a sua importância para a luta contra o radicalismo.

Sempre fui da opinião de que o mundo seria melhor sem religiões. E falo de todas as religiões, sem excepções. Apoio essa opinião em 2 motivos: os conceitos (pelo menos na sua maioria) ilógicos e mesmo absurdos nos quais elas se baseiam e pior ainda, a forma insistente em como esses conceitos sao usados como guia ético em forma de lei para se administrar a vida das pessoas como se essa lei fosse o suposto símbolo de uma superioridade moral e imagem da perfeição emanada do divino. No entanto, penso que acabar com todas as religiões é uma utopia dado estarem já bastante enraizadas na consciência humana. Certo que este enraizamento é para mim completamente incompreensível mas a inteligência humana tem coisas que ultrapassam a minha compreensão. E por causa desta impossibilidade, distingo dois aspectos dentro das religiões: o colectivo e o individual. De uma parte do colectivo já falei acima; o individual é referente à relação de cada pessoa com a religião em que acredita ou/e do uso que faz dela. Dou a seguir dois exemplos desses aspectos para um melhor entendimento das minhas palavras. O colectivo vê-se, por exemplo, no radicalismo imposto às pessoas, através da violência enquanto o individual vê-se no modo como, por exemplo, uma pessoa lida com a morte na medida em que por vezes as pessoas enfraquecidas psicologicamente depois do desaparecimento de alguém próximo viram-se para religião e o conforto que ela apresenta. Vêm na divindade em que acreditam ou noutras personalidades religiosas uma espécie de substituição e segurança em tempo de amargura da morte. E é neste sentido que compreendo a existência das religiões. O sentido do individual e no qual cada crente deveria basear a sua fé. O pior é quando se passa do individual ao colectivo. Quando das religiões se fazem escolas, das escolas nascem leis, com essas leis governa-se Estados e esses Estados entram em guerra. Ao longo dos séculos foram vários os exemplos de guerra e rivalidades religiosas e ainda hoje a influência religiosa na geopolitica em algumas partes do mundo é uma realidade. Mas como já referi acima, a nefasta influência da religião nao so se faz sentir ao nível da violência estadual como também ao nível do terrorismo. E por isso é muito importante fazer esta distinção entre as dimensões colectiva e individual das religiões. Se no mundo so existisse o lado individual, muito provavelmente nao haveria violência religiosa. Porém o lado colectivo tem esse sinal negativo de misturar política e religião. Ora se um país quer modernizar-se tem de separar definitivamente esses dois conceitos. O político faz parte do colectivo e o religioso faz parte do individual e nao se podem interligar nem ser interdependentes.
Ora tem-se assistido na Europa, desde o inicio da crise dos refugiados a um ataque constante ao islão que é vista como fonte do terrorismo, principalmente por movimentos xenófobos de extrema-direita. Importa neste contexto salientar certos aspectos para que se entenda melhor o cerne da questão. Alguns dos quais já falei em textos anteriores. Esta discriminação anti-muçulmana e populista nao existiria se nao houvesse a tal crise dos refugiados e principalmente a crise económica porque é sempre esta que na origem do populismo extremista de esquerda e direita. Trata-se por isso de um problema provocado artificialmente. Nao se pode tomar todos os muçulmanos e muçulmanas como possíveis terroristas nem todas as escolas islâmicas como fonte de terrorismo. Se poucas duvidas ha sobre as intenções do wahabismo, penso que também poucas duvidas havera que se certas escolas fossem maioritarias ( o sufismo por exemplo) tudo seria bem diferente para melhor. Nao se pode interpretar os livros sagrados de forma literal, pelo menos na sua maior parte e também nao se pode ler-los como se os seus textos fossem intemporais. Quem o faz sao geralmente conservadores intolerantes. Se no mundo so existisse cristãos e muçulmanos e se cada um destes grupos interpretasse a Bíblia e o Alcorão de forma literal, o mundo acabaria cego. Dito isto, a Europa nao pode negar o seu sentido tolerante e multicultural mas também nao pode aceitar todos os aspectos de determinada cultura porque sao considerados inerentes a essa cultura e tradicionais. Ora a tradição pode por vezesser uma boa desculpa para justificar o injustificável e por isso é inaceitável. Três exemplos, a excisao feminina, o uso de peças de vestuário (hijab, burka, tchador, etc) na religião muçulmana e as escolas corânicas que na Europa defendem a Sharia e o extremismo. O primeiro exemplo tem pouco a ver com o islamismo ao contrario do que muita gente pensa mas é usado por muitos muçulmanos como se fosse uma verdade evidente desta religião. E é uma vergonha que essa verdade seja uma realidade em Portugal por exemplo. Quanto ao segundo exemplo, e exceptuando o hijab visto que a cara nao se encontra coberta, tudo o resto representa a discriminação da mulher e por isso nao pode ser aceite. Finalmente o terceiro exemplo no qual nao consigo compreender como é que a Europa possa aceitar a apologia da violência contra os seus valores no seu próprio território. O problema é que na Europa actual existe um exagero extremista neste aspecto. Assim e por contraposição à xenofobia da extrema-direita, ha quem defenda a manutenção de valores inconsequentes por representarem a tal suposta tradição e num sentido de multiculturalismo. Ora ao nao haver um equilíbrio, isso faz com que as relações entre o mundo ocidental e o muçulmano fiquem sob ameaça. Mas nao é so na Europa que as coisas devem mudar e isto é muito importante. O mundo muçulmano tem de se modernizar, reformar-se e entrar num iluminismo que acabe de uma vez por todas com o conservadorismo religioso. E para que isso seja possível é necessário que a Europa ajuda os reformistas em vez de discriminar todo o mundo muçulmano. Como disse no inicio e na impossibilidade de acabar com as religiões, o ajudar à reforma e ao iluminismo é a melhor forma de acabar com a violência terrorista. A propósito gostaria de destacar um parágrafo de uma entrevista de 2004 feita a Mohamed Charfi*: ” A marcha do mundo no sentido da modernidade é inelutável. Mais a evolução das ideias so se pode fazer progressivamente. Em França por exemplo, os ideais da revolução francesa demoraram 3 séculos a imporem-se. Torna-se necessário simplesmente que subsistam militantes no seio do mundo muçulmano para acelerar a modernizaçao. E torna-se necessario que esses militantes sejam suficientemente entendidos e ajudados pelos seus amigos democratas do resto do mundo.”

* Foi professor na faculdade de ciências jurídicas, políticas e sociais de Tunis. Presidiu à liga tunisiana dos direitos do homem e foi ministro da educação de 1989 a 1994. Faleceu em 2008.

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