Portugal: Uma crise desnecessária em tempos difíceis!

Assistimos nas ultimas semanas a uma espécie de telenovela política, consequência de uma crise provocada por um impasse pós-legislativas tendo em conta a formação do governo. Eu tenho acompanhado essa crise com atenção, desde as noticias relacionadas com ela até aos inúmeros comentários que têm enriquecido o debate popular sobre a questão. Nessa perspectiva e porque achei por bem manter-me neutral de toda discussão sobre o assunto, resisti durante muito tempo a dar a minha própria opinião e por conseguinte a fazer valer a minha voz num tema que tem suscitado tanta controvérsia e paixão. Mas depois de muito tempo de espera passado em reflexão, decidi acabar com essa neutralidade e transmitir o meu pensamento sobre o que se passou e o que ainda se poderá passar em Portugal ao nível político. Os motivos de tal mudança podem-se numerar em dois: como resposta a certos comentários com os quais nao concordo e porque o assunto em questão é da mais alta importância para Portugal (independentemente de escolhas políticas) ao qual o meu blog também se dedica.

Antes de mais devo dizer que sendo eu de centro-esquerda e tendo já criticado tanto a direita como a esquerda, sinto-me perfeitamente à vontade para escrever o que se segue. Também realço que nao vou fazer juízos de valor sobre as qualidades e defeitos dos possíveis governos, quer fossem de direita ou esquerda. Nao é minha intenção fazer campanha por nenhum dos lados ou apoiar qualquer personalidade política mas apenas escrever o que penso sobre os últimos acontecimentos que dominaram a vida política portuguesa.

Comecemos pela base inicial e que foi as eleições legislativas de 4 de outubro passado, da qual resultou a vitoria da coligação PàF sem maioria absoluta. Por outro lado foi verificado que no parlamento, os partidos de esquerda poderiam unir-se de forma a conseguirem uma maioria parlamentar o que seria importante para a estabilidade governativa. Foi através destes dois pressupostos que originou-se uma crise desnecessária.

O que se assistiu nestes últimos tempos foi a um exemplo concreto e gritante de imoralidade e procura maquiavélica do poder, sendo que toda esta situação contribuiu ainda mais para a opinião popular negativa acerca da classe política e mesmo da política em geral. Desde a alguns anos tem havido uma crescente discrepância entre o povo e os políticos e esta crise aumentou o fosso entre ambos. No entanto importa salientar em primeiro lugar que tudo o que aconteceu (e porventura poderá ainda acontecer) era completamente desnecessário se o presidente da republica tivesse feito desde o inicio o que lhe competia. Neste aspecto, ele também carrega em si uma parte da responsabilidade da crise. E escrevo isto tendo em conta o ponto n°1 do artigo 187 da Constituição da Republica Portuguesa e que passo a citar: ” O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da Republica, ouvidos os partidos representados na Assembleia da Republica e tendo em conta os resultados eleitorais.” Ora ninguém duvida certamente que nestas legislativas o vencedor foi a coligação. Torna-se por isso difícil de perceber a razão de tanta demora numa decisão que por isso pecou por tardia. Mas talvez que o presidente tivesse a esperança de ver um governo estável com os dois partidos da coligação vencedora mais o maior partido da oposição. Infelizmente, este pensamento foi nao contar com a atitude egoísta do líder deste partido que sobrepôs a sua ganância pessoal pelo poder à estabilidade nacional tao necessária na actualidade.

E porque é que o líder do maior partido da oposição decidiu cortar com qualquer hipótese para a formação de um governo de bloco central e forçar a esta crise? Na minha opinião pessoal, convencido de que tanto descontentamento popular com a austeridade dar-lhe-ia uma vitoria fácil nas eleições, viu-se numa situação inesperada para ele quando afinal saiu derrotado desse acto eleitoral. Ainda numa espécie de estado de choque nao aceitou a derrota e tratou de negociar com outros partidos de esquerda para a formação de um governo do qual seria ele o primeiro-ministro. Neste contexto importa salientar duas coisas que mostram bem o triste exemplo de procura incessante do poder por parte da pessoa em causa. Em primeiro lugar o facto de negociar com partidos que sendo de esquerda estão muito mais afastados ideologicamente do seu em vez de negociar com o maior partido da coligação com o qual tem um conteúdo programático com muitas coincidências. Assim e nao estando em causa a legalidade de uma coligação pós-eleitoral, o facto de nao o terem feito antes das eleições mostra bem as suas diferenças mas também a proximidade na ambição de chegarem ao poder, mesmo que isso signifique o risco de instabilidade tendo em conta o abismo entre as forças políticas da esquerda. Em segundo e por consequência do primeiro, o deixar Portugal numa crise prolongada, tendo em conta como consequência sempre esperada dum impasse político deste género e que so nos prejudica ao nível externo, sendo mesmo sinal de agravar da crise económica. Também importa dizer que nunca antes aconteceu uma situação assim e que a decisão mais lógica seria a de escolha do candidato para Primeiro-Ministro para formar governo tendo em conta o voto popular.

Ora essa decisão acabou por ser tomada hoje pelo Presidente da Republica. E aqui importa falar das possíveis consequências para o futuro. O mais provável é que o novo governo nao dure muito tempo, muito provavelmente rejeitado pelo bloco da oposição. Se tal acontecer, pode acontecer duas coisas: ou o Presidente convida o candidato do maior partido da oposição a formar governo ou é feito um governo de gestão até à marcação de novas eleições, o que so poderá acontecer depois de abril se nao estou em erro. Se o Presidente opta pela primeira posição estou quase convencido de que o governo nao vai durar muito tempo, tais sao grandes as diferenças programáticas entre os partidos de esquerda. Se por outro lado houver novas eleições, o mais certo vai ser o castigo da ganância política nas urnas porque o povo nao gosta de aproveitadores. E isto indica que no final o líder do maior partido sai a perder nao so ao nível da ambição pessoal mas também ao nível partidário. Tudo porque conseguiu virar uma situação a favor da esquerda para uma situação contra a esquerda. Neste caso a sua ambição política e da esquerda também acaba por ser quase um suicídio político. Em vez de esperar calmamente a sua hora, que mais cedo ou mais tarde chegaria, o líder do maior partido da oposição quis forçar a chegada à chefia do governo com uma base que nao sendo ilegal, deixa muito a desejar do ponto de vista ético e moral, sem contar com a pobre táctica usada. Digo isto porque pode acontecer a repetição do que aconteceu em 1985 quando o governo minoritário do primeiro-ministro da altura (actual presidente da república) foi censurado por uma moção lançada pelo PRD com apoio do PS. Isto deu origem a novas eleições que culminaram na vitoria por maioria absoluta do PSD. A hipótese de tal acontecer de novo nao é remota.

Para terminar importa salientar os recados dados pelo povo tendo em conta o resultado das eleições. A coligação vencedora, ao nao ter maioria viu-se avisada em nao insistir ortodoxamente na austeridade e em mudar lentamente. O maior partido da oposição mais os restantes partidos de esquerda ao nao ganharem as eleições como esperariam receberam o recado em como devem fazer uma oposição mais construtiva em vez de insistirem sempre no problema da austeridade como se isto bastasse para ganhar eleições. Assim por um lado e como é por demais sabido os portugueses estão cansados de uma austeridade abusiva e exagerada mas por outro lado nao vêm a alternativa desejada e esperada na oposição. No fundo pode-se dizer que ambos os grupos políticos saíram derrotados tanto pelo desinteresse popular marcado pela alta abstenção mas principalmente, e ligado a esse desinteresse, pela forma como têm tratado os portugueses, colocando as ambições pessoais acima do interesse supremo do bem-estar nacional e também pela defesa de escolhas políticas que já ficaram provadas estarem erradas ou que nao sejam as melhores para o momento actual.

Toda esta crise mostrou, como se ainda fosse preciso, o pior da política em Portugal, a saber o egoísmo e o afastamento do povo so interrompido em época eleitoral e esta visto que nao acabou com a indigitaçao do primeiro-ministro por parte do presidente. O mais triste, no fim de tudo, é saber que os mais prejudicados sao as pessoas, o cidadão comum e que essa consequência nefasta vai ter ainda piores repercussões na futura vida política nacional.

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2 thoughts on “Portugal: Uma crise desnecessária em tempos difíceis!

  1. Poxa, Bruno, esta mesma novela está sendo exibida aqui no Brasil, no horário nobre!
    Apenas mudam-se os atores, conquanto o roteiro é exatamente igual. E quanto mais os espectadores vaiam, mais sucesso ela faz…

    Abraço indignado procê!

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  2. Ola

    Sabe, sei que se passa algo no Brasil ao nível político mas confesso que nao estou muito por dentro do assunto. Seja como for, e partindo do principio que a crise no Brasil ainda nao acabou, espero que os políticos tenham mais juízo do que em Portugal.

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