O exagero olímpico que beneficia as ditaduras.

Na historia dos jogos olímpicos, houve edições organizadas em países que à época eram dominados por regimes ditatoriais ou que se serviam bastante da propaganda para defenderem os seus ideais. Assim tivemos os jogos nazis de 1936 em Berlim e Garmisch-Partenkinchen, os jogos comunistas de 1980 em Moscovo e 2008 em Pequim, os jogos imperialistas e colonialistas de 1900 em Paris ou 1908 em Londres ou ainda os jogos capitalistas de 1984 em Los Angeles. Nem todas estas edições foram organizadas por ditaduras, mas todas se serviram, de forma penso que até abusiva, do alcance do evento olímpico para os seus lideres e governos publicitarem as virtudes dos seus regimes. Os jogos de 1984 foram, por exemplo, uma gigante propaganda ao capitalismo. Assim e por irónico que isso possa parecer o ideal olímpico nem sempre foi sinónimo de paz, tolerância e direitos humanos. Quis o comportamento humano que por vezes, esse ideal consignado na carta olímpica fosse desvirtuado em nome de interesses extra-desportivos. Sendo assim, é estranho que certas edições tenham tido lugar por representarem na sua essência uma violação dessa carta olímpica. E no entanto o COI continua a escolher cidades de Estados ditatoriais. No caso mais recente nem sequer houve alternativa, visto que as duas cidades finalistas sao as capitais de dois países onde vigoram regimes nao-democráticos. Refiro-me à escolha da cidade para os jogos de inverno de 2022, a qual era entre Pequim e Almaty (capital do Cazaquistao). Oslo também estava na corrida mas desistiu depois de em referendo a maioria da população ter dito nao à candidatura da capital norueguesa. Pequim acabou por ganhar o direito de organizar esse evento de 2022 mas no fundo fosse qual fosse a cidade vencedora, seria sempre uma ma escolha. Nao por causa da logística organizativa e de possíveis problemas relacionados com ela mas sim pelo que elas representam e a sua contradição com o que deveriam ser os jogos olímpicos. Mas se estas candidaturas vêm desvirtuar o movimento olímpico, a culpa também se deve ao próprio COI que exige demasiado duma candidatura. De facto e tal como outros acontecimentos desportivos de alcance mundial, os jogos olímpicos crescem a um ritmo acelerado e o gigantismo decorrente de cada edição faz com que seja cada vez mais difícil preencher os requisitos necessários para uma cidade se candidatar à organização das olimpíadas. Este exagero pode-se comparar a uma balão que se vai enchendo sem parar até um dia. Neste contexto ha cada vez mais hipóteses em que cidades de ditaduras sejam candidatas e escolhidas. E isto por duas causas que se complementam. Numa ditadura, nao ha possibilidade de escolha e por isso cabe sempre aos lideres a ultima decisão. Assim por exemplo se for preciso construir um estádio ou outro qualquer equipamento desportivo, nao se vai perder tempo com burocracias, mesmo que seja preciso destruir casas. Ora num regime democrático isso nao se passaria assim. Perder-se-ia bastante tempo em discussões e reuniões entre o comité da candidatura e os habitantes das casas. Depois uma ditadura nao olha a meios para louvar as suas auto-declaradas virtudes. Por isso nao existem problemas de orçamento e os referendo apresentam sempre resultados de mais de 90% da população a favor da candidatura.  Claro que sao resultados que devem ser interpretados com muito cuidado e dos quais é melhor desconfiar da sua veracidade mas essa imagem de um país unido à volta de uma causa é precisamente a imagem que os lideres querem dar. Uma imagem idílica e optimista de uma vida feliz, transbordando desenvolvimento e harmonia mas que na verdade contrasta com a imagem real de governos que nao respeitam os direitos humanos e nem as vontades dos povos. Ora sera muito mau se o COI nao puser um travão às suas exigências e nao simplificar o caderno de encargos. Na verdade é possível organizar jogos olímpicos sem que haja obrigação de se gastar fortunas que teriam melhor utilidade noutros assuntos mais urgentes. A continuar assim, so ditaduras e países ja com uma larga preparação desportiva poderão receber os jogos, o que seria mau para o movimento olímpico.

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