Victoria Woodhull, a escandalosa.

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Woodhull, circa 1860. (Wikimedia Commons)

        Victoria Woodhull foi uma política feminista norte-americana. Juntamente com a irma Tennessee Caflin, foi a primeira Correctora na Bolsa de Nova Iorque. provocou o escândalo ao defender o amor livre; o seu mediatismo fez dela uma das iniciadoras do movimento pelo direito de voto das mulheres norte-americanas. Em 1872 foi a primeira mulher a candidatar-se à presidência dos EUA.

        Nasceu no dia 23 de setembro de 1838 em Homer no Ohio. O seu pai, Ruben Buckman claflin vivia de esquemas fraudulentos, jogador de cartas, traficante de cavalos ou vendedor de poções. Casou com Roxanna Hummel, uma criada que por vezes parecia prever o futuro através de visões. Tiveram sete filhos, dois meninos e cinco meninas, entre as quais Victoria e Tennessee que foram muito próximas uma grande parte da sua vida.

       Aos 15 anos casou com o médico Canning Woodhull de 28 anos. O casal viveu primeiro em Rochester, instalando-se depois em Sao Francisco que na altura vivia a corrida ao ouro. Tiveram um primeiro filho, Byron, deficiente mental. Canning, tornou-se alcoólico e por causa disso tinha cada vez mais dificuldades em  assegurar os recursos da família. Victoria vai substitui-lo nesse papel ao tornar-se actriz.

       Em 1857, esta decide ir ter com Tennessee, Encontrou-a em Indianapolis, onde assegurava o bem-estar da família explorando os seus talentos de médium. Victoria juntou-se a ela, fazendo profissão de espirito. A família teve de se mudar varias vezes devido a escândalos ligados a fraudes e para se afastarem das zonas de combate na guerra da secessão. Em Nova Iorque nasce no dia 23 de abril de 1861 a segunda criança, uma menina chamada Zula.

       A família Claflin instala-se depois em Otava no Illinois, onde um dos irmãos de Victoria, Hebert criou um hospital para cancerosos enquanto Tennessee retomava a sua actividade de vidente. Foi aqui que Victoria deu as suas primeiras conferências: embora apresentando-se como vidente, defendia os valores do feminismo fazendo com que ganhasse popularidade de forma rápida.

      Após a morte de uma paciente, as condições deploráveis do hospital Claflin foram descobertas. A familia teve assim de abandonar rapidamente Otava e regressou à vida itenerante passando por Cincinnati, Chicago e Sao Luis. As duas irmãs apresentavam-se como videntes enquanto Victoria continuava as suas conferências.

      Em Sao Luis, numa das suas conferências, Victoria conheceu o coronel James Blood, um veterano da guerra da secessão, do qual ela tornou-se muito próxima.  Blood era igualmente casado e ambos pediram o divorcio aos seus respectivos noivos.

      A família Claflin mudou-se então para Nova Iorque onde Tenneesse conheceu Cornelius vanderbilt. Adepto do espiritismo, ele simpatizou com as duas irmãs. Informações dadas por Victoria permitiram-lhe safar-se do escândalo Fisk-Gould que fez cair brutalmente a corrida ao ouro. Ajudou então as duas irmãs a montarem o seu próprio escritório, tornando-se assim as primeiras mulheres correctoras na Bolsa de Nova Iorque.

      O seu sucesso neste novo domínio, aliado a uma certa prosperidade, abriu a Victoria, as colunas do New York tribune e depois do New York Herald. Foi neste jornal que em 1870 anunciou a sua intenção de se candidatar à eleição presidencial de 1872, antes de criar o seu próprio jornal chamado Woodhull and Claflin’s Weekly.

      Como parte do seu apoio ao comunismo, traduziu pela primeira vez para os EUA, o manifesto do partido comunista, tornando-se ainda membro da Primeira Internacional. No ano seguinte seria excluída por Karl Marx por causa das suas posições sobre amor livre.

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Senhora Satanás – caricatura de Thomas Nast durante a campanha presidencial de 1872

          A campanha de Victoria pelo direito das mulheres a votar originou a criação de um Partido de Igualdade de Direitos. durante uma convenção nacional no dia 10 de maio em Nova Iorque. Ela foi ai designada como candidata à presidência, escolhendo como vice-presidente Frederick Douglass, um antigo escravo, militante republicano radical. Este recusou esta escolha, fazendo campanha por Grant no estado de Nova Iorque. Esta candidatura era simbólica, visto que Victoria tinha na altura 34 anos e a idade mínima para se se candidatar era  35 anos.

      Em novembro de 1872 foi presa por Anthony Comstock devido a linguagem obscena. Ela tinha denunciado juntamente com a sua irma e no seu jornal, em nome da hipocrisia da moral sexual, as relações adulteras que o pastor Henry Beecher mantinha com a mulher do seu melhor amigo, Theodore Tilton. Beecher era um pregador famoso, oposto ao amor livre, mas tal como Victoria, abolicionista e a favor do direito das mulheres ao voto. Para alguns historiadores, o escândalo que se seguiu, marcou uma ruptura no pensamento publico entre os direitos das mulheres e o apoio ao amor livre, este ultimo sendo considerado como uma ameaça ao casamento, a religião e a ordem social. Favorecendo a aplicação do Comstock Act sobre obscenidade, esta ruptura originou um crescimento do apoio ao papel tradicional da família e o abandono do debate sobre o papel das mulheres nas famílias. A detenção de Victoria e Tennessee foi seguida de uma vaga de detenções de apoiantes do amor livre. No dia da eleição ainda encontrava-se presa. Durante a contagem dos votos, os seus nao foram validados o que faz com que nao se saiba quantos votos ela obteve.

        A seguir à sua libertaçao decidiu abandonar os EUA, partindo para Inglaterra. Foi nesta altura que encontrou Benjamin Tucker, jovem anarquista pelo qual ela se apaixonou. Divorciou-se de Blood mas a sua nova paixão foi breve.  No seu novo paîs continuou com sucesso a dar conferências. Numa delas encontrou John Biddulph Martin, um dos banqueiros mais ricos de Inglaterra. Casou com ele e foi viver para Worcestershire.

      Converteu-se ao catolicismo e desenvolveu obras sociais no seu domínio. Continuava feminista mas passou a usar um discurso mais centrado na castidade e no respeito do casamento, rejeitando todos os seus discursos sobre amor livre. Lançou em 1882 um novo jornal The Humanitarian em colaboração com a sua filha Zulu-Maud. Quando o seu marido morreu, deixou-lhe a totalidade dos seus bens. A partir dai, Victoria passou apenas a ser notada pela sua paixão pelos automóveis que ela conduzia no condado onde vivia. Morreu no dia 10 de junho de 1927.

       Para se compreender o papel de Victoria na defesa dos direitos das mulheres, é preciso notar que na sua época elas nao tinham quase nenhuns direitos. Assim, por exemplo se uma mulher casada trabalhasse, era obrigada a dar os seus ganhos ao marido, se se divorciasse perdia automaticamente a custodia dos filhos. As mulheres nao podiam entrar nas universidades, escolas de direito ou escolas médicas. Também nao podiam ser juradas ou votar. Mas o mais incompreensível para Victoria era que as mulheres nao podiam ter controle do seu próprio corpo. Nao havia leis para proteger-las dos abusos dos seus maridos e pais. Nao tinham o direito de negar acesso sexual aos seus maridos. Aos homens era permitido todos os meios de licença sexual mas se uma mulher cometesse adultério então era presa. Por causa disto Victoria defendia uma doutrina chamada “Free Love” que incluía a noção de casamento por amor e uma simplificação das leis do divorcio. Algumas das suas ideias sobre o assunto eram muito radicais e polémicas, mesmo para os padrões de hoje. Para ela as mulheres nao tinham a noção do seu poder e deixavam-se subordinar por aqueles que apenas as queriam controlar como escravas. Também para ela a liberdade sexual significava a abolição da prostituição dentro e fora do casamento, a emancipação da mulher e o controle do seu próprio corpo, o fim da dependência monetária da mulher em relação ao marido, o fim da gravidez forçada e do crime contra crianças indesejadas e o nascimento de crianças so por amor.

        Se algumas ideias eram polémicas, outras deixaram de o ser e sao hoje largamente aceites. Assim, Victoria foi pioneira no uso da dieta, na pratica de exercício físico e no conforto no vestir. Coisas que hoje sao banais mas que na sua época nao existiam. Ninguém fazia dieta, o exercício físico para mulheres era uma aberração para uma sociedade machista e a moral rígida vitoriana nao permitia que as mulheres fossem livres na escolha das roupas. Victoria era contra o uso do espartilho devido às nefastas consequências para a saúde e defendia mesmo o uso de saias curtas. Algo que obviamente era um escândalo para a época mas que hoje em dia é aceite sem problemas. Pelo menos nas sociedades que souberam libertar-se do machismo religioso.

Fonte: Victoria Woodhull – Wikipedia

           About Victoria Woodhull / Woodhull Sexual Freedom Alliance 

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2 thoughts on “Victoria Woodhull, a escandalosa.

  1. Oi, Bruno!
    Escandalosa beleza da ousadíssima Victoria. Não a conhecia e adorei a biografia. Me encantou o fato de montar um jornal com a filha, pois mulheres assim costumavam deixar os filhos pelo caminho.
    Me lembrou a biografia (que me intriga) de uma feminista americana que veio mais tarde: Rose Wilder Lane. Já escreveu sobre ela?
    Fiquei aqui pensando que no início da década de 70 o Brasil rural carecia de uma feminista assim. As mulheres, além de todas as restrições mencionadas no texto, só votavam em quem o marido ordenasse (na verdade, somava-se dois votos para o candidato dele, ou mais, caso houvesse filhas).
    Nossas mulheres se emanciparam rápido devido à maioria católica, religião onde (aqui) os homens quase não frequentam igreja.

    Grande abraço!

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  2. Ola Cristina!

    Nao conhecia a Rose Wilder Lane. Obrigado. Também vou procurar sobre feministas brasileiras. Confesso que nao conheço nada delas, a nao ser que a Rita Lee seja feminista :D. Acho curioso quando diz que no Brasil as mulheres se emanciparam graças à maioria católica. Curioso porque em Portugal, a igreja católica associada à ditadura foi grande responsável pela discriminação contra as mulheres. Foi so depois do 25 de abril de 1974, que as mulheres começaram a emancipar-se.

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