Syriza – Gostava de acreditar, mas…

   

Parthenon, Atenas (Foto: Orestis Panagiotou/EPA)

    E domingo a esperança venceu. Pelo menos foi assim que reagiu o partido Syriza após saber da sua vitoria nas eleições legislativas gregas. E esperança foi o que ele prometeu e é o que o povo grego espera. Esperança que a austeridade acabe de vez, que haja de novo uma vida com dignidade e que a recuperação económica seja uma realidade. Eu também gostaria de acreditar na mudança mas esta vitoria de um partido de extrema-esquerda nao me inspira confiança nenhuma. Vejo-a como uma vitoria de promessas, um aproveitamento do descontentamento popular que tal como todas as fantasias vai infelizmente e  provavelmente colocar a Grécia num estado ainda pior do que no inicio da crise.
    O que se passou domingo na Grécia foi uma reacção emocional de um povo cansado de pagar um preço demasiado alto para ter uma pequena hipótese de pelo menos recuperar o valor do nível de vida anterior à crise. Os gregos fartos das falhas dos partidos tradicionais que dominavam o sistema, deram uma oportunidade a um partido radical que até ha pouco tempo tinha muito pouca expressão eleitoral. E esta mudança pode ter sido a primeira de muitas num continente que parece entrar por caminhos arriscados como o comprova a subida dos extremismos populistas de direita e de esquerda. E pode ser também a primeira de muitas desilusões quando o povo descobrir que nao existem soluções faceis ou poções magicas para resolver os problemas inerentes à crise. E depois o que vai acontecer quando as pessoas deixarem de confiar definitivamente nos partidos? Sejam eles os tradicionais do poder e antigos ou os novos que prometem uma ruptura com o passado. Vao nascer novas ditaduras? O povo vai-se virar para novos populistas que usam a democracia para imporem a sua tirania?
    Repare-se como a Grécia é um bom exemplo desta dicotomia extremista esquerda-direita. Todo o mundo so fala na vitoria do partido de extrema-esquerda Syriza mas é preciso nao esquecer que em terceiro lugar ficou o partido de extrema-direita Aurora Dourada. A Grécia, pode-se dizer que é assim uma reprodução em pequena escala do que pode acontecer à Europa no futuro. Preciso dizer que pessoalmente nao acredito muito que toda a Europa entre nesta via populista e que algumas eleições proximas sejam ganhas por partidos extremistas mas quando se vê por exemplo o FN de Marine Le Pen a subir em França, o Podemos a angariar cada vez mais popularidade em Espanha, o holandês Geert Wilders também a subir num dos paises mais tolerantes da Europa, o UIKP no Reino Unido, o movimento 5 estrelas de Beppe Grilo e outros, nao posso deixar de me sentir preocupado e vigilante com que o futuro pode trazer se todos estes partidos e lideres continuarem neste aumento de popularidade. Repare-se alias como na Grécia o descontentamento é tao grande que colocaram o Aurora Dourada em 3° lugar apesar de o seu líder e metade da sua bancada parlamentar estarem presos.   Nao sera a imagem real de um comício deste partido onde no palco em vez da presença física do líder, ele falou através de um écran gigante, o símbolo de uma degradação da democracia onde o rebanho esta pronto a seguir qualquer pastor mesmo que este nao possa olhar por ele?
    Este caminho que a Europa esta a tomar é perigoso mas também a sua causa esta numa Europa neoliberal rendida ao mundo dos mercados e dos bancos. Os lideres europeus estão a esquecer a vertente humana e o lado humanista, do qual a Europa já tantos belos exemplos deu no passado. Esta insistência na humilhação económica e financeira acaba por ser um dos motivos do aumento do extremismo mas os lideres europeus nao parecem ver isso ou nao querem mesmo ver. No entanto cair no oposto total pode ser um erro  ainda pior. Bem que gostaria que o Syriza conseguisse levar avante a sua esperança mas duvido muito. Boas intenções nao fazem um programa e Alexis Tsipras faz-me lembrar um pouco aquele boneco do “Contra-Informação” que imitava o Durão Barroso e dizia “Oh diacho, acho que nao vim preparado pra isto!” Receio bem que o novo primeiro-ministro grego vá ter a mesma opinião daqui a alguns meses. Alias importa dizer que o Syriza ja começou muito mal ao fazer um acordo para a formação de governo com um partido nacionalista de direita. Querem melhor exemplo de que os extremos acabam mesmo por se tocar?
    Finalmente e terminando com o caso especifico grego, tenho a dizer que faz-me lembrar um pouco Portugal, se bem que num tom mais radical. O povo grego parece-me ainda mais emocional e radical do que o povo português (basta lembrar as manifestações anti-austeridade em ambos os países). Para quem conhece os livros de Astérix sabe que Uderzo e Goscinny gostavam de retratar cada povo da antiguidade com estereótipos engraçados, um pouco exagerados é certo mas que nao deixam de ter uma ligação correcta com a realidade. Assim os germânicos sao retratados como militaristas, os helvéticos como muito organizados e limpos, os fenícios como comerciantes inveterados, os iberos como orgulhosos e amantes da festa, os vikings como guerreiros, aventureiros e anárquicos, os bretoes como calmos e cavalheiros, os lusitanos como declamadores de poesia e desinteressados de tudo e os gregos como avarentos. E aqui chegamos ao cerne da questão. Um facto que aparece de forma repetida nos livros de Astérix é os gregos a queixarem-se dos preços. E este facto representado de forma humorística  explica e bem mais uma semelhança connosco e uma causa comum da crise, a interna. O discurso de esquerda, principalmente a radical, gosta de pôr a culpa exclusiva da crise nos factores externos, o domínio dos mercados, a austeridade imposta por governos escravos daqueles e sem coragem para lhes fazer frente, o controle dos grandes bancos e agências de notação, etc. Um discurso nomeadamente anti-imperialista e anti-capitalista. De facto e como já escrevi anteriormente neste mesmo texto, quando as coisas sao exageradas, cai-se no erro de esquecer o povo e já houve muito desprezo pelos mais atingidos pela crise mas ir buscar as causas somente num lado sem ter em atenção o outro é um erro tao grave como fazer com que nao se passa nada. Os factores internos sao fáceis de encontrar tanto na Grécia como em Portugal, fuga exagerada aos impostos, um alto nível de corrupção e uma mentalidade um pouco avarenta. O problema é que quem paga por esses erros sao quase sempre quem nao tem culpa nenhuma, enquanto quem devia pagar na justiça, consegue escapar. E quanto à mentalidade, já o disse varias vezes antes, é preciso acabar com essa desconfiança reciproca entre o povo e o Estado; é preciso acabar com essa ideia de que pagar impostos nao serve para nada e claro também é preciso acabar com a corrupçao no Estado que muito ajuda à fuga aos impostos. Sera assim tao dificil transformar uma Grécia ou um Portugal numa Suécia por exemplo?
   Tendo em conta o que o povo grego já sofreu e continua a sofrer seria bom que o Syriza conseguisse fazer algo de positivo mas francamente e apesar de o blog ter a palavra esperança no titulo, prefiro por vezes ser realista. Mas se estiver enganado serei como sempre o primeiro a reconhecer-lo!

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2 thoughts on “Syriza – Gostava de acreditar, mas…

  1. Difício, Bruno… A dívida, aparentemente impagável, requer austeridade. No entanto, os que levaram o país às dívidas sacrificam os demais e se safam.
    Me lembro de uma Grécia que nos chegava feito a Suécia, sim: As pessoas trabalhavam a meio expediente, tinham pouca prole, se divertiam e viajavam. Vista aqui de longe, a Grécia era uma Noruega até melhorada…

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  2. Eu até gostava que a Grécia desse uma lição à Alemanha e à sua obsessão dos números em detrimento das pessoas mas ha que ser realista e nao cair em fantasias. No entanto nao pode continuar a haver austeridade desta forma exagerada como tem havido.
    Curiosa essa imagem da Grécia no Brasil, mas atençao quando comparo com a Suécia falo por exemplo dos impostos. Sabe porque este pais é dos que tem melhor nível de vida no mundo? Porque as pessoas pagam muitos e altos impostos e o Estado usa o dinheiro desses impostos de forma correcta e benéfica para o povo. Na Grécia pelo contrario existe uma enorme fuga aos impostos e o dinheiro que chega ao Estado é muitas vezes desviado em esquemas corruptos. Essa é a grande diferença.

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