Mia Khalifa e a polémica inútil da sua escolha profissional.

     Como é do conhecimento geral, a sociedade do Médio Oriente é, por principio, conservadora e isto nota-se ainda mais no que toca às mulheres, vitimas de um machismo religioso-social, seja qual for a religião e/ou a sociedade. Por isso e para muitas pessoas que ai habitam, as mulheres que tentam escapar ao seu destino humilhante e viver a vida conforme as suas escolhas, nao merecem respeito e acabam por ser rejeitadas como filhas do pecado. Ora se essas escolhas se desviarem ainda mais dos padrões tidos como aceitáveis pela moral rígida desses países do Médio Oriente entao é ponto assente em como a mulher corre o risco de ver a sua situação complicar-se ainda mais. Digo isto a propósito de mais um exemplo de tentativa de rebaixamento vinda daqueles lados so porque uma mulher teve a ousadia de escolher uma carreira profissional que desagrada profundamente muitos dos habitantes do pais onde nasceu.
      Tudo começou quando a actriz líbano-americana Mia Khalifa nascida em Beirute foi considerada como a estrela mais popular do site Pornhub em dezembro do ano passado. De repente começou a haver uma discussão, em torno desta escolha profissional, no seu pais de origem, sendo que para muita gente, o facto de ela ser uma actriz de cinema para adultos é uma vergonha e uma desgraça. Nao faltou muito tempo para que começasse a receber ameaças de morte, como por exemplo na imagem abaixo, onde alguém publica uma fotomontagem onde ela aparece como vitima do Estado Islâmico:

      Também muitos meios de comunicação social libaneses publicaram artigos de opinião contra Mia Khalifa ao que ela respondeu no twitter: “Nao tem o Médio Oriente coisas mais importantes com que se preocupar, além de mim? Que tal encontrar um presidente? Ou parar o EI?” Mas o pior para ela foi a reacção dos seus pais, que deixaram de lhe falar e cortaram todo e qualquer tipo de relação com ela. Pais conservadores e tradicionalistas, viram na escolha da sua filha uma afronta aos valores que defendem e a resposta que deram fez Mia sentir-se culpada por ter atirado o nome da família para a polémica mas nunca tal foi sua intenção e a escolha que fez foi feita de modo consciente. 
     Mas nem todos reagiram negativamente à sua escolha profissional. O escritor britânico-libanês Nasri Attalah defendeu-a de forma brilhante: “A indignação moral sobre Mia Khalifa, provavelmente a primeira estrela porno libanesa é errada por duas razoes, primeiro e acima de tudo, como mulher, ela é livre para fazer o que bem lhe agradar com o seu corpo. Segundo, como ser humano senciente, que vive na outra metade do mundo ela é responsável pela sua própria vida e nao deve nada ao pais onde calhou de nascer. Existe essa percepção de que ser libanesa é em primeiro lugar uma vocação e um dever e so depois vem a vida pessoal.”
     O que mais ressalta nesta polémica toda é de facto a inutilidade de um debate provocado por pessoas que rejeitam a liberdade feminina e fazem uma tempestade num copo de agua quando, e como ela muito bem diz no seu twitter ha coisas mais importantes para debater. Ha que reconhecer que a escolha profissional dela nao é uma escolha agradável a todos e mesmo no mundo ocidental, haverão pessoas que certamente nao iriam aprovar-la. Mas esta negação é mais o produto de anos e anos de doutrinação machista e religiosa do que uma escolha auto-consciente. Produto esse que esta na origem dessa percepção infelizmente popularizada segundo a qual “uma mulher que saia com muitos homens é uma mulher da vida e um homem que saia com muitas mulheres é um conquistador.” Mas também e por causa disso é que uma simples actriz porno quase que pode ser considerada uma feminista e defensora dos direitos das mulheres. A propósito, isto faz-me lembrar um documentário que vi ha pouco tempo sobre cantoras pop egípcias. E aqui o caso ainda é mais estranho porque cantar nao é uma profissão tao polémica como actriz de filmes para adultos. No entanto, estas cantoras, nas roupas que usam, na maquilhagem e nas danças sensuais do seus vídeos sao muito ocidentalizadas e ha muita gente da sociedade egípcia que rejeita e quer acabar com aquilo a que chamam uma depravaçao e um insulto. Ora se elas fossem europeias ou norte-americanas por exemplo, provavelmente passariam despercebidas porque num mundo artístico cada vez mais descartável, artistas como elas aparecem e desaparecem aos montes, mas numa sociedade conservadora como é a muçulmana, elas fazem figura de heroínas do feminismo e dos direitos da mulher. E ja agora é também esta dominação machista da sociedade que faz com que no mundo muçulmano, e excepto alguns casos, os homens possam vestir-se à vontade enquanto as mulheres sao obrigadas a esconderem-se nessa opressão vestimentaria chamada burqa. Eu por mim nao tenho duvidas em dizer que a liberdade da mulher (e do homem também) deve ser respeitada em todos os sentidos e cada indivíduo deve ter a liberdade de fazer as suas próprias escolhas desde que nao prejudiquem a sociedade. Ora nao me parece que actuar em filmes para adultos ou cantar provoque algum mal, ao contrario por exemplo desses grupos jihadistas que transmitem uma imagem muito mais negativa, se bem que falsa, da sociedade muçulmana.
              Wikipedia
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