Mundiais vs. direitos humanos.

  
      Nao sei se foi de propósito, mas pelo que se tem visto nas noticias desta vez a FIFA escolheu como organizadores dos próximos três campeonatos do mundo de futebol, três países onde existe muitas falhas em termos de direitos humanos. Comecemos pelo mundial do Brasil, o qual começa daqui a apenas 2 semanas aproximadamente. Brasil, país gigante cheio de esperança e porém ainda com tantos problemas. E esses problemas têm sido o motor de varias manifestações que se têm produzido constantemente nos últimos meses. Muitos brasileiros estão fartos desse contraste entre os gastos exuberantes na organização do mundial e a falta de condições de vida e direitos básicos. Quantias enormes de dinheiro gastas em estadios e outras obras enquanto ao mesmo tempo faltam escolas, hospitais, segurança, etc. E quanto mais o mundial se aproxima, mais os protestos aumentam. O Brasil parece uma pessoa exibicionista que gosta de mostrar a toda a gente o super carro que comprou e o relógio em ouro e porém na sua casa é uma pobreza lastimável. O mundial de futebol e os jogos olímpicos de 2016 sao bem uma imagem de um Brasil forte e virado para o futuro, mas por detrás desse quadro de progresso, ainda ha uma realidade manifestamente preocupante alimentada por uma enorme corrupção que corrói o país. Mas no final e como acontece quase sempre, já se sabe que toda esta fúria vai desaparecer quando o mundial começar e o povo vai seguir com paixão alienada cada jogo. A nao ser que desta vez, as coisas tomem um rumo mais sério e sejam um caminho para uma transformação porfunda da sociedade brasileira.
      Quanto ao desrespeito dos direitos humanos na Russia é constante e deveras sério. A FIFA ao atribuir a organização do mundial de 2018 à Russia quis abrir um novo mercado para o futebol e portanto aparece assim como um perfeito exemplo da ganância à frente da dignidade humana. Pouco importa se na Russia nao ha liberdade nem democracia se o mundial dar lucro, é o que muito provavelmente pensaram na FIFA. E nos últimos tempos esse imenso país tem sido o palco de acções que empobrecem o ser humano e recusam qualquer forma de tolerância ou liberdade, seja nos ataques à comunidade LGBT, no desrespeito por países vizinhos ou ainda no controle político e rígido de toda a sociedade. E aqui, apesar dessas violações nao estarem relacionadas com o mundial de 2018, sao sempre uma ma imagem para qualquer país. E sera que quando se aproximar a altura do evento, vai haver protestos como no Brasil? Bom é pouco provável a nao ser que o sistema político mude na Russia. E outra razão para essa pouca probabilidade é a diferença entre uma sociedade muito mais aberta e tolerante e uma sociedade muito mais fechada e desconfiada. Mas também é verdade que a historia nao é imutável e por isso pode ser que as coisas mudem para melhor no maior país do mundo. 
      Finalmente no Qatar e apesar do mundial ser so em 2022, já muito se tem falado nele, nomeadamente de uma forma negativa. E isso por dois aspectos. O primeiro, extra-direitos humanos, tem a ver com o clima difícil para a pratica do desporto, o que deu origem a muitas criticas na escolha do país e até já fez com que muito possivelmente o campeonato seja realizado em Dezembro, o que seria uma primeira vez. Ja o outro aspecto esta bastante relacionado com os direitos humanos e tem a ver com a exploração dos trabalhadores, principalmente estrangeiros, nas obras relacionadas com o mundial como os estádios. De facto, desde ha muito tempo o Qatar tem sido alvo de relatórios  de organizações internacionais como a Amnistia Internacional ou HumanRightsWatch que põem em causa a forma como os trabalhadores sao tratados. Por exemplo, muitos deles, vindos da Ásia (Nepal por exemplo) sao atraídos por promessas de altos salários mas na verdade sao muito mal pagos e muito tardiamente. Ainda por cima vivem em condições miseráveis. Além disso sao tratados como prisioneiros porque os empregadores recusam-lhes vários direitos como a manutenção do passaporte ou a obtenção da carta de condução ou de um empréstimo e ainda mudar de emprego. Ora, ao trabalhador estrangeiro e entre trabalhar debaixo de péssimas condições ou cair na ilegalidade, nao resta do que escolher a primeira opçao com tudo o de negativo que isso traz. Por isso têm sido constantes as noticias de mortes entre os trabalhadores que participam nas obras do mundial. Entretanto, as ultimas noticias sao mais positivas e indicam mudanças na legislação laboral do país, indo mais no caminho da protecção dos trabalhadores estrangeiros contra a exploração abusiva dos empregadores*.
      Como se vê, nos três países escolhidos pela FIFA para os próximos mundiais de futebol, ainda ha muito trabalho para fazer no tocante aos direitos humanos e infelizmente se tudo continuar como até aqui, essas mudanças vao ainda demorar muito tempo até serem efectivas. Os mundiais, por causa da sua visibilidade, podem forçar a que elas sejam mais rápidas, mas no fundo tudo depende dos poderes interiores. Veja-se como prova, dois exemplos históricos: os mundiais de Itália/1934 e Argentina/1978. Ambos foram organizados debaixo de ditaduras e nem o facto de ambos os países serem mais visíveis, atenuou a repressão do poder. 
     No fundo, até pode ser que estas escolhas nao tenham sido mais do que uma coincidência mas talvez seja mais correcto dizer que é uma coincidência movida pelo dinheiro e o futebol é sem duvida  o maior exemplo de uma actividade que já extravasou ha muito a definição de desporto para se transformar num negocio gigantesco que põem em causa os valores humanos e originais que estão na base de qualquer desporto. Por isso a FIFA mais do que um organismo desportivo é quase uma empresa multinacional onde ha muita coisa por detrás que nada tem a ver com desporto. E as escolhas dos mundiais têm muito a ver com isso. 
       
    

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