Considerações sobre um inquérito acerca do 25 de abril.

    “Inquérito 25 de abril é a data mais importante da História

      No passado sábado, apareceu no jornal Expresso, um inquérito a propósito dos 40 anos do 25 de abril (ver link acima), do qual parece-me merecer um comentário aos resultados obtidos.
      A primeira pergunta é sobre o acontecimento mais importante da História de Portugal de um leque de 6 acontecimentos à escolha. Aquele que teve maior percentagem de respostas positivas foi o 25 de abril de 1974. Além das explicações dadas no artigo para este resultado, penso eu que outro motivo sera o facto de neste momento Portugal ser governado por um governo de centro-direita que tem provocado grande descontentamento principalmente devido à política de austeridade exagerada. A resposta do 25 de abril poderá ser vista neste caso como uma reacção à situação actual do país, visto que é uma data muito ligada à esquerda. Existe assim um contraponto psicológico baseado numa opinião parcial da História derivada dos acontecimentos actuais. Cada época tem as suas condicionantes e neste resultado podemos ver uma condicionante do tempo em que vivemos. Veja-se por exemplo aquele concurso do português mais famoso da História. Quem ganhou? António de Oliveira Salazar. Qual era o tipo de governo na altura do concurso? Um governo de centro-esquerda. E que por sinal também estava a causar descontentamento na população. Esta parcialidade e visão subjectiva faz com que, aquele que realmente é o acontecimento mais importante da História de Portugal apareça apenas no penúltimo lugar. E a prova da sua importância é a de que é quase o único acontecimento português que aparece nos compêndios de História universal. A descoberta do caminho marítimo para a Índia e o período dos descobrimentos em geral foi o período no qual Portugal mais influenciou o mundo e as gerações vindouras. O 25 de abril também teve influência a nível internacional mas menos e num menor espaço de tempo.
     Noutra parte do inquérito perguntava-se como é que a História deveria retratar o regime político anterior ao 25 de abril. Como diz no resultado, nos últimos 10 anos diminuíram as opiniões negativas sobre a ditadura e sao as pessoas de rendimento mais alto que vêm mais negativamente esse período. Sobre a diminuição de opiniões negativas é fácil de explicar pelo desalento, pelo cansaço de ver promessas nao cumpridas e em suma por anos de política perdida nos corredores do poder sem se dar atenção aos problemas que têm atravessado gerações em Portugal. E também se explica pela falta de conhecimento, principalmente daquelas e daqueles que nao viveram no tempo anterior ao 25 de abril. Ora esta explicação também pode servir, em parte para o facto de serem as pessoas mais ricas que vêm negativamente a ditadura salazarista. De facto, este resultado é um pouco surpreendente porque ha uma tendência em associar essa ditadura às famílias mais ricas e conservadoras enquanto a maioria da população vivia com dificuldades. E ainda hoje essa tendência mantém-se um pouco. Mas é preciso nao esquecer que as famílias de mais alto rendimento têm um mais fácil acesso ao conhecimento enquanto as famílias mais pobres sao mais facilmente susceptíveis de serem influenciadas, principalmente por ideias populistas. E parece-me que ha um pouco de populismo político no saudosismo do regime salazarista.
   Quanto às restantes perguntas, têm as respostas que se esperavam. Este inquérito mostra que se por um lado o 25 de abril ainda é uma data muito importante para a maioria dos portugueses, por outro lado e por causa de um período democrático que ainda nao trouxe tudo o que prometera, o salazarismo é cada vez mais visto de forma positiva ou pelo menos de uma forma nao tao negativa como antes. Ora sabendo que esse período correspondeu a uma ditadura onde o nível de vida era pior do que o actual, o regime político actual nao pode adormecer sob um facto consumado. Se a probabilidade de o regresso a uma ditadura é altamente improvável, é triste verificar que ha gente que vê em Salazar,  aquele que provavelmente seria o melhor líder para a actualidade. A aprendizagem democrática é muito longa e nunca acaba.

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