Lampedusa. Mais uma tragédia para esquecer?

 

   Trezentos mortos. O numero assusta e faz reflectir. Ou pelo menos deveria. Mas infelizmente e provavelmente, estes mortos depois de chorados e homenageados serão esquecidos por uma sociedade europeia (nao todos é certo) que assobia para o lado e espera que o tempo faça esquecer um problema que esta mesmo ali à porta. E esse problema é a imigração e a vinda continua de refugiados para o continente europeu. Normalmente as pessoas abandonam os seus países devido a fortes motivos que os impedem ou dificultam o ter uma vida normal e conforme o que desejariam. Isto acontece quando ha guerras, desastres ambientais, perseguições políticas, graves dificuldades económicas, etc. Na esperança legitima de procurarem uma vida melhor, estas pessoas põem a vida em risco para chegarem ao que eles consideram o El Dorado onde poderão recomeçar tudo de novo. Mas a verdade é que, levados por promessas, por historias de quem la vive, por contratos de trabalho, esses sonhadores e lutadores acabam  por fazer viagens arriscadas devido a perigos geológicos, a ameaças metereologicas e a pessoas sem escrúpulos que se aproveitam da ignorância e ingenuidade dos emigrantes para lhes roubarem o mais que podem. E no final, descobrem com amargura que o El Dorado nao é assim tao dourado quanto parece e que podem ter escapado à guerra e outras tristezas mas terao de enfrentar novos inimigos naqueles que os rejeitam. E isto, referente àqueles que conseguem chegar ao destino, porque muitos sao os que desistem ou que acabam por morrer.
    Com o aumento continuado das viagens entre África e Europa era de prever, mais cedo ou mais tarde, uma tragédia como esta em Lampedusa. Isto devido às pobres condições de muitas dessas viagens. Mas a União Europeia e a Itália foram sempre adiando uma procura de uma solução que se justificava urgente e eficaz. No entanto, talvez influenciados por um modelo actual de anti-imigração que se tem espalhado no velho continente, os lideres políticos com responsabilidade na matéria ou nao fizeram grande coisa para solucionar o problema ou tentaram-no resolver pelo modo mais simples e preguiçoso de fechar as fronteiras, quando se sabe que isso nao é uma solução humanista nem correcta. Como muito bem disse a ministra para a cooperação internacional e integração, Cecília Kyenge (também ela de origem africana) é preciso nao esquecer que estas pessoas fugiram de situações insustentáveis e ameaçadoras para as suas vidas. Por isso é incompreensível que sejam recebidas de uma forma fechada e pouco simpática depois do que já passaram e sofreram.
     Agora ha que ver  outro lado da questão. Se por um lado existe a obrigação moral da Europa em ajudar estes refugiados, por outro é preciso ver que essa obrigação tem de ser acompanhada por condições sustentadas e nao por um humanismo irresponsável que nao leva a mais do que a um empobrecimento do nível de vida e a um adiar da resolução dos problemas. A Europa nao pode continuar a ser um porto de abrigo para toda a gente mas deveria ajudar a criar condições para que as zonas atingidas sejam zonas de paz e desenvolvimento. Se os políticos anti-imigração e os que os defendem nao querem mais imigrantes têm é de fazer com que estes percam vontade de viajar através de estímulos positivos (pressionar a esforços políticos e diplomáticos para a paz, cooperação e desenvolvimento) e nao por estímulos negativos (o encerrar de fronteiras e o expulsar) que com certeza nao demoverão os concorrentes à esperança. Como diz o velho provérbio chinês é melhor ensinar a pescar do que simplesmente dar de comer.
      Também é preciso ver mais dois aspectos importantes que têm a ver com este assunto. Em primeiro lugar, tenho a consciência de que a responsabilidade do que se passa nesses países em guerra é mais por causa de factores internos do que externos. Por isso a Europa pode ensinar a pescar mas a forma como a pesca é distribuída depende dos lideres políticos desses Estados. Por outro lado este clima contra os emigrantes que tem ganho peso na Europa penso dever-se a meter-se tudo no mesmo saco. Existe uma tendência infeliz de culpabilizar os emigrantes por tudo e por nada, quando a maioria procura apenas a oportunidade de uma vida melhor. E esta tendência aparece mais, quando a crise é maior. Trata-se portanto de uma mistura de egoísmo e ignorância por parte de uma sociedade que teima em fechar os olhos a problemas que precisam de solução rápida. Isto nao obsta a que é preciso ver que nem todos os emigrantes vêm com boas intenções e que outros abusam da solidariedade europeia e nem ao menos tentam adaptar-se à vida nos lugares onde vivem. Mas fazer disto um problema exclusivamente de origem racial e principalmente africana é uma falácia pois que também se podem encontrar “malandros”  entre os europeus.
       Por tudo isto, impõem-se uma pergunta: vai a Europa continuar a fechar os olhos e a esquecer o problema dos emigrantes, principalmente depois desta enorme tragédia de Lampedusa ou vai acordar de vez e fazer tudo para que esta gente lutadora tenha a dignidade que merece?

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