A moda muçulmana e a influência da religião.

       
    
       A moda foi algo que nunca me interessou.  Não tenho paciência para ver desfiles, revistas, montras e acho  esse mundo tão supérfluo e vazio que por vezes pergunto qual a necessidade dessas extravagancias. Podem chamar-me antiquado ou ignorante mas cada um tem os seus gostos e eu sinceramente não consigo gostar de moda. Digo isto porque precisamente, este artigo que estou a escrever é pelo menos um pouco sobre moda. Contraditório?  Não tanto, porque o tema aqui é moda, não num sentido exclusivo mas  em termos de relação com um tipo de sociedade que precisamente não parece ter muita relação com aquela. E essa sociedade é a muçulmana.  Escrevo a propósito de um artigo que li no jornal “I” deste sábado passado da autoria de Luísa Ribeiro Soares e intitulado “Islão e moda. Choque de titãs entre tradição arcaica e mulheres modernas”. Ao ler esse artigo vi que as coisas não são tão lineares como parecem e que por vezes aquele mundo tão conservador e fechado das burkas e chadores, não é só aquilo que nos ocidentais vemos e que pode surpreender-nos. O artigo começa por falar sobre o código islâmico do vestuário tanto para homens como para mulheres em que deve-se distinguir homens de mulheres e crentes de não crentes. Também fala de como esse código é aplicado de forma diferente conforme o regime político do pais, sendo que por exemplo na Turquia e na Tunísia há mais liberdade de aplicação desse código do que na Arabia Saudita ou no Irão. Portanto há aqui uma grande influência da religião islâmica nos comportamentos das pessoas, no modo de se vestirem, nas cores que escolhem e no caso das mulheres na forma como se maquilham. Influência que aliás faz-se sentir em tudo ou quase tudo, numa sociedade islâmica.  No que concerne as mulheres, a imagem que os ocidentais têm, principalmente dos países mais conservadores, é uma imagem de mulheres vestidas sempre da mesma forma, sem distinção nas formas ou nas cores e escondidas debaixo do tal código islâmico simbolizado nos tecidos que não deixam ver as suas formas.  Ora surpreendentemente, as coisas não são tão simplistas assim pois que nesse mesmo artigo de Luísa Ribeiro Soares, uma portuguesa radicada na Arabia Saudita fala-nos de como as mulheres deste pais têm tanta ou mais preocupação pela beleza como as ocidentais e que apesar das imposições do código islâmico, tentam concilia-lo com a sua feminilidade ou mesmo evita-lo. Por exemplo diz o artigo: “Desde que a escolha de roupa seja “halal”-permitida pela Sharia, o código moral e religioso islâmico- , é possível à mulher muçulmana expressar-se através do seu modo de vestir, se não através da silhueta, então pela escolha de cores, padrões, ornamentos e até acessórios.”  Ora precisamente, e como diz essa portuguesa que vive na Arabia Saudita, tem havido muitas mais mulheres a usarem tecidos com flores e coloridos e que por isso não há tanto uma uniformização como aos nossos olhos poderia parecer. Também, e ainda nas palavras dela, tem havido mais miúdas de famílias liberais que não cobrem a cabeça, embora neste caso andem sempre com um lenço à volta do pescoço, na vá surgir a policia religiosa e que é muito rígida na aplicação do código. Ainda outra coisa de que esta portuguesa fala é o “… contraste abismal entre o exterior e o interior.”. Todos temos a ideia de que as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda categoria nesses países muçulmanos mais conservadores e eu próprio tenho de dizer que não fujo muito a essa opinião, pois que certas coisas não consigo compreender, como por exemplo haver sempre “… uma área reservada às mulheres e uma reservada aos homens. Para tudo o que é vida social – festas, jantares –, essa separação é extremamente rigorosa.”. Leis que têm como base a tradição religiosa que é inseparável do ornamento jurídico político. Mas apesar disso, as mulheres sauditas não deixam de ser mulheres no que toca à procura dos ideais de beleza. E falo nas mulheres sauditas como falo das mulheres dos outros países muçulmanos. Neste sentido se a aparência exterior é fechada por imposição, quando estão dentro de casa tornam-se mais ocidentalizadas do que as próprias ocidentais. A portuguesa que é preceptora de uma princesa saudita diz que a ostentação delas é absolutamente incrível e que ficou a compreender realmente para quem trabalha a alta-costura europeia quando foi para a Arabia Saudita. Trata-se de um mundo de luxo, de riqueza, onde as mulheres competem entre si como se fosse um concurso de beleza e onde há uma grande atracão pela perfeição física.  Há particularmente uma frase da portuguesa que me chamou  a atenção: “ Confesso que, se no Ocidente usássemos o tipo de de decotes que as sauditas usam, seria um bocado estranho…  é tipo ‘Hollywood’, mas ainda mais competitivo entre elas.”  Ora como se vê por aqui, aquele mundo puritano que associamos à sociedade islâmica, afinal nem sempre é tão dominador e as mulheres sauditas podem ser iguais ou mais liberais no que toca a porem-se bonitas. A procura de beleza, é portanto algo que acaba por ser comum a todas as mulheres do mundo mesmo as muçulmanas e mesmo aquelas que se cobrem da cabeça aos pés. Agora, se afinal as mulheres sauditas gostam de mostrar a sua beleza e se as novas gerações começam a usar  roupas mais coloridas e a não cobrirem a cabeça, isso significara uma mudança de mentalidades em que o domínio religioso já não seja tão evidente? Porque penso sinceramente que se trata de mais um exemplo de como a influência de uma religião, seja ela qual for, pode ser negativa no comportamento de uma sociedade e é um grande contrassenso. Porque esconder a beleza quando ela existe, de propósito para ser vista? O puritanismo trata-se de uma grande hipocrisia onde debaixo de uma capa de respeito e educação existe na realidade um mundo de mentiras, de inveja e de perversidade. Depois, não são as roupas que fazem duma pessoa, mais devota ou não, portanto querer impor o uso de determinados vestuários às mulheres nunca foi do meu acordo pois que para mim o mais importante é o coração de cada mulher e o seu modo de ser. E depois se a religião é tão importante na Arabia Saudita e noutros países muçulmanos, penso que não devia ser imposta de uma forma tão dominadora mas  cada mulher devia ter a liberdade de escolher a forma de se vestir.  Se há mulheres que vestem a burka ou o chador por opção então há que respeita-las mas também devia-se respeitar aquelas que não desejam ter a cabeça coberta.  Penso que a mudança de mentalidades vai continuar na Arabia Saudita e noutros países muçulmanos e os homens vão compreender que a religião vai continuar a ter um importante na sociedade sem que para isso seja preciso sacrificar a igualdade das mulheres. O islamismo e a beleza podem coexistir.

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4 thoughts on “A moda muçulmana e a influência da religião.

  1. Salam,

    a jornalista Luísa Ribeiro escreveu um artigo bem interessante a respeito de moda; entretanto, como você mesmo pôde observar, há vários “mundos” dentro do mundo árabe no que tange a moda.
    Se você visitar o Líbano ou a Jordânia, por exemplo, irá verificar que o uso do hijab não é algo imposto, porém quem usa, usa o hijab como uma escolha super pessoal. No Egito, algumas usam, outras, não, mas a preferência no Egito ainda é pelo hijab.
    Há mulheres sauditas belíssimas a usar Alta Costura por baixo das Abayas pretas, mas como diz uma antiga frase da cultura alemã “Kleider machen Leute”, “As roupas fazem as pessoas”, o mundo sempre se inclinará a julgar o próximo pela “segunda pele”, ou seja, pela roupa.
    Por falar em mulheres árabes, lá estão elas novamente em meu blog em mais um poema…

    Um ótimo início de semana para o escriba (não invisível, como disseste num texto), pois na internet, é impossível ser invisível, sempre haverá alguém a ler nossos textos, mesmo que não os comentem.
    Muita Paz.

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  2. Olá Bruno e Denise!
    Um texto belíssimo, bem redigido, esclarecedor.
    Realmente, o interior e o exterior podem ser controversos, tanto nos locais de convivência, quanto em seu próprio ser…
    Quem já não desejou, em alguns eventos sociais, lançar mão de uma espécie de burka para se “safar” da sociedade circundante?
    Estar ali quase invisível deve fornecer alguns privilégios, ao passo que nos ambientes íntimos, se possa retirar o “casulo” sem maiores receios!
    Grata pela reflexão e boa semana,
    Cri.

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