Lendas mouras de Portugal.

    A algum tempo atras escrevi dois artigos que mostravam a influência árabe em Portugal. Eram eles: “Portugal e o mundo arabe” e “Portugal e o mundo arabe 2“. Agora lembrei-me de escrever um pouco mais sobre essa influência, neste caso através de algumas lendas do folclore português, associadas à presença árabe no nosso pais. Existem muitas e por isso torna-se impossível falar de todas elas aqui, esperando eu no entanto, dar a conhecer um pouco desse património etnográfico da nossa historia. 
    A primeira lenda chama-se “Lenda da Moura Saluquia” e esta associada à cidade de Moura no Alentejo. Segundo esta lenda, a princesa Saluquia filha de Abu-Hassan e governadora da cidade entao chamada Al-Manijah, apaixonou-se por Brafama, alcaide mouro de Aroche. Na véspera do matrimonio, este dirigiu-se com uma comitiva a Al-Manijah mas como todo o norte e oeste alentejano tinham sido conquistados pelos cristãos, a viagem era perigosa. Entretanto D. Afonso Henriques encarregara dois irmaos de conquistar a cidade de Moura. Eram Alvaro e Pedro Rodrigues que sabendo dos preparativos do matrimonio, surpreenderam a comitiva de Aroche num olival e mataram Brafama. Depois disfarçaram-se com as roupas dos mouros e quando chegaram a Moura foram confundidos por Saluquia com a comitiva de Aroche. Esta imediatamente abriu-lhes as portas das muralhas. Mas mal entraram na cidade, conquistaram-na e Saluquia apercebendo-se do seu erro e sabendo da morte de Brafama, pegou nas chaves da cidade e atirou-se da torre onde se encontrava. 

Armas da cidade de Moura com a torre e a princesa Saluquia, numa alusão à lenda com o seu nome. 


       A lenda seguinte chama-se “Lenda da moura Oureana” e conta-se assim: no tempo da reconquista um grupo de cavaleiros templários decidiu conquistar Alcácer do Sal, tendo entre eles o valente Traga-Mouros. Este durante a conquista conheceu uma bela moura de seu nome Fátima, pela qual ficou logo apaixonado dedicando-lhe uma trova:
Oureana! Oureana! Oh! Tem por certo
Que esta vida, de viver,
Toda a vida se olvidou naquele aperto.
E o que em troco eu vim a haver
Não há mais para se ver.
Ora vos tenho, ora não
E um a um eles que chegarão
Já me apanhaste e já não…
D’aqui largam e d’ali pegam,
que anda tudo ao repelão
Por mil golvos retoiçando ·Ai, ai, que vos avistei!…
Já sei por que ando lidando,
Que em tais terras bem pensei
Melhor fruto não verei.
   Quando a luta terminou, os mouros levaram consigo Fátima mas o Traga-Mouros raptou a linda moura que era filha do alcaide da cidade. Depois ele pediu ao rei D. Afonso Henriques para casar com Fátima como recompensa e este concordou. Mas tendo medo da reacção do povo, ele fugiu com ela para uma terra isolada perto de Ourém. Fatima converteu-se ao cristianismo e foi baptizada com o nome de Oureana. Mas pouco depois ela faleceu e o Traga-Mouros ficou tao desgostoso que foi para o convento de Alcobaça onde também morreu. Esta lenda deu origem às localidades de Ourém e Fátima. 

Castelo de Ourém


      Uma das mais famosas lendas é a “Lenda das amendoeiras em flor”. Ainda antes de Portugal existir e quando o Al-gharb pertencia aos mouros, reinava em Chelb (futura Silves), o jovem rei Ibn-Almudim que nunca tinha sido vencido. Um dia entre os prisioneiros de uma batalha viu a linda Gilda à qual deu-lhe a liberdade e pediu para ser sua mulher. Foram felizes durante algum tempo mas um dia a bela princesa ficou doente sem razão aparente. Entao um velho contou ao rei que a princesa sofria de nostalgia da neve da sua terra. O rei mouro decidiu assim mandar plantar muitas amendoeiras. Estas quando floriam davam flores brancas e a princesa ao ver aquilo pensou que era neve e sentiu-se muito melhor. Depois viveram felizes durante muitos e muitos anos. 

Amendoeiras em flor no Algarve


   Para terminar deixo aqui uma ultima lenda: no tempo da reconquista o cavaleiro cristão D. Raimundo regressava duma batalha contra os muçulmanos quando viu duas mouras, mae e filha. Esta trazia uma bilha de agua e o cavaleiro pediu para beber mas ela assustada deixou cair a bilha e o cavaleiro enfurecido matou-a e à mae. Logo depois apareceu um jovem mouro que era familiar das duas e foi feito prisioneiro. Assim ele foi levado para o castelo de D. Raimundo que vivia com a sua esposa e filha. O jovem mouro sabendo disto planeou vingar-se e matar-las. A mae, matou-a com veneno mas quanto à filha, acabou por se apaixonar por ela. Ora esta, sabia dos planos do pai que era casa-la com um cavaleiro da mesma religião e sabendo isso e porque também amava o jovem mouro decidiu fugir com ele. Assim deixaram o castelo e desapareceram para sempre. Diz a lenda que o casal pode ser visto na torre de menagem, nas noites de Sao Joao com o cavaleiro D.Raimundo a pedir perdão de joelhos. 

     Castelo de Almourol, local da ultima lenda contada neste artigo.



      


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One thought on “Lendas mouras de Portugal.

  1. Salam, escriba! Fascinante a presença moura em Portugal…Há muitas pessoas em Portugal que têm traços árabes e alguns costumes também.

    Portugal e seus arabesques…belíssimo.

    Os castelos…deu vontade de visitá-los, Insh´Allah.

    Gostar

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