50 anos da crise académica de 62.*

      Fez ontem 50 anos em que começou a crise académica de 1962. Esta crise aconteceu a seguir ao inicio da guerra do ultramar (1961) e representou um dos grandes passos no caminho para o derrube da ditadura do Estado Novo. Também foi um dos grandes momentos de contestação estudantil que o mundo viveu durante os anos 60 e que teria em Portugal, continuação na crise de 1969.
      Tudo começou portanto nesse dia 24 de março de 1962. Desobedecendo às ordens do governo salazarista da época que proibia as comemorações do dia do estudante (precisamente o dia 24 de março) muitos estudantes da Universidade Clássica de Lisboa invadiram a cantina como forma de protesto. A policia encerra a cantina e invade a Faculdade de medicina tentando fazer o mesmo com a Faculdade de Direito. O reitor da Universidade conversa com o ministro do interior que promete mandar retirar a policia. Ao mesmo tempo o ministro da educação promete receber os estudantes mas falta ao prometido. Ha nessa altura uma carga policial após o fim do festival no Estádio Universitário.

24 de março de 1962
    No dia seguinte da-se uma reunião de estudo na Faculdade de Medicina mas a policia armada de metralhadoras invade o recinto e exige a sua evacuaçao em cinco minutos. A 26 de março é decretado o luto académico em Lisboa e Coimbra. Ambos os comunicados das Associações de Estudantes sao censurados e nao publicados na impressa e em Coimbra sao presos estudantes que distribuíam comunicados do dia do estudante nas ruas. Dois dias depois ha um encontro dos dirigentes estudantis com o Ministro da Educação que se diz pronto a autorizar o dia do estudante se tivesse uma informação dos reitores. O luto é suspenso. Nesse mesmo dia a policia instaura um processo à A.A. Coimbra na realização do primeiro encontro nacional de estudantes. No dia 5 de abril o M.E.N (ministério da educação nacional) proíbe o dia do estudante. O reitor Marcelo Caetano pede a demissão. No dia 12 de abril recomeça o luto. A 9 de maio da-se inicio uma greve de fome por 86 estudantes na cantina da universidade. Ao mesmo tempo é decretado o luto académico com total ausência às aulas e exames. Sai um baixo assinado por mais de cem engenheiros a apoiar a atitude dos estudantes. 
Lisboa, 10 de maio de 1962, cantina universitária.
  Apenas dois dias depois 1500 estudantes sao presos por estarem a acompanhar essa greve. Três dias depois a policia impede os estudantes de se reunirem no Instituto Superior Técnico. Um dia depois, 15 de maio, a policia invade a cidade universitária para impedir uma reunião de estudantes. O vice-reitor recusa a pedir a saída desta. A 19 de maio o professor Lindley Cintra escreve uma carta a apoiar os estudantes que é seguida de uma carta de 98 assistentes e professores dele a apoiar a sua. Apenas dois dias depois sai um decreto  do M.E.N permitindo a aplicação de sanções aos estudantes sem prévio julgamento e permitindo a pessoas sem classificação universitária serem professores universitários. Os professores da Faculdade de Letras e ainda 6 assistentes do ISCEF contestam este decreto. A 26 de maio 150 estudantes de Coimbra barricam-se na AAC como forma de protesto contra as medidas tomadas pelo governo. A AAC é invadida pela policia e todos os estudantes presos. Durante esses dias os estudantes recebem completo apoio dos assistentes e professores. 
      A 4 de junho o leitor de inglês da Faculdade de Letras apresenta a demissão como protesto contra a forma como os estudantes sao tratados. No dia 5 de junho é impedida pela policia uma reunião em frente à reitoria. Esta tem lugar no recinto do hospital escolar mas a policia ataca espancando os estudantes, o professor Cintra e um estagiário que protegeu o professor Celestino da Costa. A 15 de junho termina o luto. A 20 de junho da-se uma concentração no Aljube para protestar contra a prisão de Eurico de Figueiredo. Vinte prisões e ataques da policia de choque. A 28 de junho sao expulsos da Universidade de Lisboa por 30 meses, 21 dos estudantes que estiveram na greve de fome. No dia 19 de julho é entregue uma carta ao presidente da republica de 47 professores e doutores da mesma universidade, protestando contra as medidas do governo. Em novembro sao presos Medeiros Ferreira (secretario-geral da RIA), Luís Lemos e Pedro Lemos (colaboradores da CPA) e Victor Mateus Branco do ISEF. A 6 de dezembro da-se o julgamento em Coimbra da AAC acusada de ter desobedecido às autoridades com o primeiro encontro nacional de estudantes que incrivelmente fora autorizada pelo M.E.N.
       Cansados da repressão e da intransigência governativas e sem possibilidade de assegurarem a coordenação do movimento os estudantes desistem da contestação dando lugar ao regime que volta a controlar a situação. Apesar desta derrota na pratica, os germes desta crise ficaram para sempre no pensamento do povo português servindo de inspiração para outros movimentos e por fim para a revolução do 25 de abril de 1974. Foi também dos primeiros movimentos de contestação estudantil a nível mundial. Por tudo isto e porque é sempre bom recordar as lutas corajosas pela democracia, espero que no futuro as novas gerações continuem a falar desta crise académica e a mantê-la na perenidade. 
* As informações cronológicas da crise presentes neste artigo têm como fonte os sites “Crise Académica de 1962” e “Crise Académica-cronologia
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