A greve geral ou o descontentamento.

    Temos ai  uma greve geral. Mais uma contra as medidas de austeridade. A greve é uma forma de protesto e é também um direito. Mas confesso que às vezes estranha-me estas greves à portuguesa. Elas so resultam se houver uma conjunção entre uma união massiva dos protestantes e uma continuidade sequencial de vários dias até se obter o resultado desejado. Ja disse e volto a dizer, em Portugal nao ha a tradição da contestação. Faz-se uma greve aqui e outra ali e muitas vezes com poucas centenas de manifestantes na rua, quase todos ligados à esquerda. Mas a maior parte dos grevistas prefere estar em casa ou passear. Ora isto nao é nenhuma forma de protesto. Apenas é uma irresponsabilidade na medida em que nao participam em algo que serve a todos, principalmente em tempo de crise e austeridade. Mas a greve serve para alguma coisa? Bem no inicio disse que é um direito mas quando se torna um abuso deixa de ser um direito. Simplesmente porque nao leva a lado nenhum. Eu por exemplo tenho visto e ouvido desde muito novo a conversa repetitiva da CGTP e dos partidos de esquerda sobre os direitos dos trabalhadores, sobre as greves e manifestações, sobre a exploração por parte dos mais ricos, etc. Ora num pais como Portugal nao deixam de ter razão em certo sentido. Basta ver a distribuição cada vez mais desigual da riqueza.  Mas esta teimosia quase cega faz esquecer que nem todos os que passam dificuldades sao de esquerda e nem todos os que vivem bem sao de direita. A esquerda assume-se como defensora dos oprimidos, dos que nao têm um amanha contra o mundo selvagem e explorador do capitalismo. No entanto a fome e as dificuldades financeiras nao têm nada a ver com política. As teorias políticas esbatem-se nas contas por pagar e perdem todo o sentido. Por isso é que as greves também nao costumam ter o resultado pretendido. Porque sao vistas por muita gente como uma espécie de comícios da esquerda. O que num pais ainda um pouco conservador como é Portugal, nao leva a nada. Assim muitas pessoas vêm mais essas manifestações como reuniões de esquerda do que protestos que lhes interessam porque vao contra medidas de austeridade que prejudicam a todos. Depois parece-me que a greve geral também nao tenhas grandes consequências porque actualmente o governo português ou de outro qualquer pais da UE nao tem todo o poder nas suas maos. Os governos nacionais cedem alguns poderes à UE que por sua vez é guiada em parte por grandes grupos económicos. Por isso uma greve geral tem mais uma força simbólica do que real. Um poder simbólico que pode ser prejudicial porque desvia o pais do esforço necessário que é preciso fazer para recuperar a economia. Porque sinceramente nao estou a ver o governo a ceder e por isso talvez a capacidade de esforço e recuperação dos portugueses fosse melhor aproveitada num esforço colectivo para lutar contra as injustiças de uma forma tenaz e continua mas por outro lado sem esquecer o sentido realista da vida. Um sentido que diz que protestar é um direito mas que contribuir para o progresso do pais é um dever. Agora que nao haja confusões entre as duvidas sobre as consequências da greve geral e a injustiça das medidas de austeridade. Sinceramente nao creio que ela tera grande impacto mas também nao suporto um pais cada vez mais perdido numa ditadura económico-financeira que afecta a maioria da população e por consequência as bases democráticas do pais. Ja agora e para acabar, acredito que a maioria dos portugueses até aceite alguns sacrifícios para se recuperar a economia mas nao se pode pedir sacrifícios de uma forma abusadora quando a justiça permite situações escandalosas que beneficiam alguns ou quando o sistema económico continua a permitir que uns poucos lucrem com a pobreza de muitos.

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One thought on “A greve geral ou o descontentamento.

  1. Ótimo texto, mas então, a greve continuou?

    P.S: Bruno, vc cometeu um equívoco ao dizer que Indonésia e Irão são países árabes em seu comentário no meu blog; Indonésia e Irão nem fazem parte da Liga Árabe. Talvez vc gostaria de dizer que esses países são islâmicos. Era isso, não!?
    Um abraço fraterno.

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